Este blog anda meio parado. Vamos retomar o Serrabikers. Espero.
Ontem, sábado dia 6 de outubro eu e o Marcos Guazzelli fizemos um "pedaleo". A Trilha das Aranhas ao contrário.
O Marcos havia me convidado no meio da semana. O Isac que normalmente pedala nos domingos comigo e as gurias me ligou na sexta pra saber se haveria pedal. Avisei que seria uns 100 Kms e ele topou. Marcamos para o sábado de manhã as 7:30 em frente a Igreja de São Pelegrino. O Isac não apareceu, dormiu demais.
Saímos em direção ao atalho dos romeiros para Caravágio. Estava ótima a temperatura, de mangas curtas, levemente friozinho, o que mantinha a temperatura sob controle, mesmo nas subidas mais fortes. Suávamos um pouco mesmo assim.
Em uma descida, antes do último descidão que chega no asfalto, estávamos a uns 50 Kms e após uma curva vimos um caminhão subindo, se esperava que ele puxasse para o lado e desse espaço. Porém não o fez. Foi preciso segurar a respiração e passar entre o caminhão e o cascalho acumulado na lateral. um pouquinho mais para a direita, uns 5 cms e vupt, escorregaria no cascalho. Passamos.
No descidão até o asfalto o Marcos se foi, nem tento acompanhá-lo. Não tenho essa competência. Dei um pancadão em uma pedra que ficou a marca na lateral do pneu. Até parei pra olha se não havia cortado.
Subimos o morrão do atalho, rapidinho. Já foi pior essa subida.
Nem paramos em Caravágio. Segundo o Marcos estávamos dentro do tempo das outras 3 vezes que ele fez esse trajeto, uma hora.
Tocamos direto, a direita. O Marcos não gosta desse trecho da estrada. Eu gostei. O primeiro desidão é muito legal ao contrário.
Chegamos ao asfalto. Agora 21 Kms de descida asfáltica até o Bin Laden. Não paramos em Vila Jansen. Direto, socando. Pouquíssimos veículos. Sensacional a paisagem. Serra, peraus, precipicios, cascatas, paredões, frescor da manhã. Curtição total.
Chegamos ao Bin Laden. Na ponte olhamos os saquinhos presos aos galhos das árvores que retratavam o nível que a água havia atingido na última cheia do rio. Impressionante.
Segundo o Marcos fizemos 5 minutos mais rápido a descida desde Caravágio.
Tomamos um refri preto com um salgadinho horrível. Descansamos uns 10 minutos, tiramos água do joelho e saímos novamente.
Agora seriam os 11 kms costeando o rio, a Trilha das Aranhas.
Simplesmente sensacional. As tradicionais pedras lisas, buracos e valetas.
Começamos modestamente e eu comecei a gostar da coisa. Me empolguei e subi o ritmo, e subi e subi. Jisuis, que lenha. Foi o tempo todo a todo pulmão, todas as descidas no limite, todas as subidas aproveitando o embalo, trocando de marcha e fazendo esquentar as pernas. Me senti com coragem, fui além do meu normal. Puxei o tempo inteiro. No primeiro riacho pessei devagar. No segundo passei a milhão, jogando água pros lados e arriscando o tombo. Deu uma trancadinha, mas passou na inércia.
Chegamos a balsa e demos sorte, estava do nosso lado. Em seguida atravessaram para buscar um carro.
Mais uma vez impressionou o nível que as águas atingiram. Se via o barranco lavado e as pedras aparentes, livres da terra.
Atravessamos e começamos a subida. Nada conservadores. Puxando forte, e assim fomos até Nova Pádua. Segundo o Marcos das outras vezes que subiu demorou uma hora. Fizemos em 40 minutos desta vez. Foi de perder as pernas pelo caminho. Em dois momentos o Marcos abriu uns 30 metros mas eu fui buscar. Ele anda treinando durante a semana.
Em Nova Pádua tomamos uma Malzbier geladinha. Comemos uma torrada, um sanduiche e tiramos um cochilo.
O problema foi retomar o pedal. Que moleza. O dia virou num bafão mormacento.
Ao sair o pneu traseiro da minha bike estava murcho. Passamos no posto e enchemos. Talvez fosse um furo pequeno que demorasse para esvaziar.
Enchemos e saímos, de leve para as pernas acordarem, bem de leve.
Não adiantou, antes de subir o morro dos 78 kms/h tive que remendar o furo.
Subimos o morro e já chegamos na encruzilhada que leva ao Gelain. Caminho da semana passada. Descemos até a encruzilhada dos PMs e encontramos um carro da PM passando. Coincidência.
Subimos pela capela São Francisco e voltamos pela Linha 40. O Marcos colocou 77 Kms/h na descida. Na subida do Zanrosso, deu crepe numa das pernas do Marcos. Subimos devagar. Nada grave.
Foi cansativo mas foi bão. E conseguimos observar a paisagem. Até tucanos vimos.
Para mim deu 92 Kms e 17, 7 de média. Esperava a média um pouco mais altas. Mas tá bão de mais.
Até a próxima.
07 Outubro 2007
25 Maio 2007
Sopão do Zunior
Ontem, uma noite muito fria, congelante, resolvemos fazer um sopão para reunir a tropa de pedaladores e dar algumas risadas. Nos encontramos então as 19 horas na casa do Zunior, já que é ele o fazedor profissional de sopa. O cara entende de sopa, tava ótima.
Lá estávamos nós... Pastor Igor, agora apelidado de 6 onças, que trouxe para o recanto suas lindas canções de paz e fé.

Andrius, que mesmo com o frio foi de bike e não tirou o capacete nem para jantar.

Marcos, que não foi de bretele da Gretchen pois estava frio.

Jorge, que dispensa comentários, por ser o galan da noite.

Eu, um mero espectador desta confusão.

E quem manda na bagaça, Mestre Zunior, o cozinheiro fala fina de plantão.

O Zaka não apareceu e a história/desculpa que deu para não ter ido ainda não nos convenceu, achamos que ele foi pedalar. O Testolino também não apareceu, ficou com preguiça de se deslocar 140km para ir jantar com a gente. E os demais não se manifestaram.
Antes da janta foi bom tomar um vinhoto para esquentar. O problema foi abrir a garrafa, já que não tínhamos abridor.




Não foi fácil.
Um queijinho trazido pelo Pastor Igor salvou a a hora dos aperitivos, acompanhado dos amendoins do Zunior.

Enquanto isso o mestre cuca, Zunior, preparava a janta.

E o resto da tropa, que não trabalhava, assistia aos inúmeros dvds de tombos de bike. Cada tombo lindo, tudo cara sem cérebro e sem dente. Ta loco.

Até o luki se fez presente. Ah, o Mika chegou depois, mais tarde, trazendo mais vinho pra nós. Apesar de acharmos que ele trouxe sagu em garrafão, mesmo assim tomamos. Quer dizer, alguns beberam aquilo, alguns.

As fotos daqui foram tiradas com o meu celulóide e só estas foram publicadas, já que o Mika se mandou mais cedo da janta e até agora não deu notícias nem sinal de vida. As fotos dele virão em 2.018.
Foi uma baita janta, como sempre são as reuniões dos pedaladores de plantão. Todo mês tem que sair uma, no mínimo uma. Sempre.

E era isso por enquanto, até o pedal do final de semana. Mesmo com frio. That’s all folks!
Lá estávamos nós... Pastor Igor, agora apelidado de 6 onças, que trouxe para o recanto suas lindas canções de paz e fé.

Andrius, que mesmo com o frio foi de bike e não tirou o capacete nem para jantar.

Marcos, que não foi de bretele da Gretchen pois estava frio.

Jorge, que dispensa comentários, por ser o galan da noite.

Eu, um mero espectador desta confusão.

E quem manda na bagaça, Mestre Zunior, o cozinheiro fala fina de plantão.

O Zaka não apareceu e a história/desculpa que deu para não ter ido ainda não nos convenceu, achamos que ele foi pedalar. O Testolino também não apareceu, ficou com preguiça de se deslocar 140km para ir jantar com a gente. E os demais não se manifestaram.
Antes da janta foi bom tomar um vinhoto para esquentar. O problema foi abrir a garrafa, já que não tínhamos abridor.




Não foi fácil.
Um queijinho trazido pelo Pastor Igor salvou a a hora dos aperitivos, acompanhado dos amendoins do Zunior.

Enquanto isso o mestre cuca, Zunior, preparava a janta.

E o resto da tropa, que não trabalhava, assistia aos inúmeros dvds de tombos de bike. Cada tombo lindo, tudo cara sem cérebro e sem dente. Ta loco.

Até o luki se fez presente. Ah, o Mika chegou depois, mais tarde, trazendo mais vinho pra nós. Apesar de acharmos que ele trouxe sagu em garrafão, mesmo assim tomamos. Quer dizer, alguns beberam aquilo, alguns.

As fotos daqui foram tiradas com o meu celulóide e só estas foram publicadas, já que o Mika se mandou mais cedo da janta e até agora não deu notícias nem sinal de vida. As fotos dele virão em 2.018.
Foi uma baita janta, como sempre são as reuniões dos pedaladores de plantão. Todo mês tem que sair uma, no mínimo uma. Sempre.

E era isso por enquanto, até o pedal do final de semana. Mesmo com frio. That’s all folks!
15 Maio 2007
Pedal do Fim do Mundo
Sábado 6:30 da madrugada. Acordo.
Bosta de dia. Não sei porque. Mas é uma bosta.
Não tô legal. Hoje era pra fazer o Pedal do Fim do Mundo mas aqueles dois viadinhos do Marcos e o Zunior não ligaram nem pra dizer que não iriam.
Pedalar sozinho por caminho tão desconhecido, distante e supostamente difícil é loucura.
São 7 horas. Me sinto fraco. Angustiado. Me reviro. Viro. Torno a revirar. Tá um saco ficar na cama.
Mas e se eu não for o que vou fazer aqui. Não tenho nada programado.
O resto da tropa marcou pedal na frente do Bob´s, será as 8 ou as 9. Sei lá. Não tô a fim.
As gurias vão pra Canela. Me convidaram pra pedalar por lá no domingo. Mas pra isso eu preciso ir até lá.
Aaaaaaaaa to 'mol'. Tô brabo. Mau humor, nuvem negra.
Putz. Já são 8 horas. A luz do sol entra em profusão pela janela. O dia parece bom. A previsão acenava com possibilidade de chuva.
8:30
Tem alguma coisa errada comigo. Sempre saio cedo da cama. Nos domingos, no máximo as 7:30.
Ouço barulhos de cidade em movimento, já são 9 horas da manhã.
Bosta, vou levantar.
Vou lá fora ver está porcaria de dia. Deve estar horrível, não vai dar pra pedalar mesmo. Assim decido de uma vez e fico em casa. O Pedal do Fim do Mundo tem que ser com sol e dia lindo.
Abro a porta e me deparo com um céu de brigadeiro. Não há nuvens e a temperatura está ótima.
Putz! Mas já são nove horas, não arrumei nada. Muito tarde. Não vou.
Mas o dia tá bonito.
E se eu for arrumando aos poucos pra ver se a vontade vem.
Sinto medo. Sozinho. Celular não pega. Se cair, só os urubus me acham.
Pensamentos pessimistas, mas precisam se considerados.
Trago a Gradiva, aquela que anda, para participar da conversa. Ver se ela me diz alguma coisa.
Muda, completamente calada como sempre, ela me deixa sozinho em minha decisão.
Mas ao menos sei que posso contar com ela, seja qual for a escolha, ela nunca reclama.
Saio de novo lá fora. Ainda não há nuvens. Vou ou não vou. Saco! Sozinho! Com companhia é muito melhor. Faz quase dois anos que quero fazer esse trajeto e não consigo companhia. Já fiz vários convites. No único que alguém aceitou, o Testa, eu é que não pude ir.
Nossa, já são 10 horas. Nem fiz o mapa. Não vai dar.
Bom vou abrir o Google Earth e dar uma olhada, ver algumas referências.
Olho. Anoto algumas distâncias. Tem várias encruzilhadinhas. Marco algumas em um papel. Mas não tô com saco pra muito nhênhênhê.
Resolvo dar uma olhada no horóscopo do Terra, sempre é otimista, me faz bem quando leio.
"Os escorpianos já nascem com instrumentos para enfrentar as piores tempestades e os caminhos mais difíceis"
Era o que eu precisava ler para tomar uma decisão.
Eu vou. Tá decidido.
Agora com mais presteza, enrolo um pedaço de câmara no canote pra engrossar e fixar o bagageiro. Pego tudo que preciso, coloco na mochila, prendo a bolsa de guidão. Tenho tudo que preciso. Beleza.
Escoro a Gradiva na poltrona, encosto o pneu na porta como sempre faço. Sento no sofá pra por a sapatilha e BLAAAMMM. A Gradiva caiu, merda. Gradiva - caiu - chão - tombo - sozinho. Nãããão apaga esses pensamentos. Levantei a querida, nenhuma avaria. Escorei ela de novo. Sentei no sofá, comecei a colocar a outra sapatilha e BLAAAAMMM de novo. Aiaiaiai será que não é pra eu ir???
Que se exploda, agora eu vou.
Saí já eram 11:15. Muito tarde. Peguei a Rota do Sol, pit stop no posto São Luiz pra colocar mais ar nos pneus pois estava mais pesado com a bagagem.
Desci o Santa Fé voando e subi no coroão, só troquei pra coroa do meio no pé do morro do Eberle, pois entrei a direita na estrada de chão pra ir até o Bar do Véio e dali descer até a ponte amarela.

Quando fiz a foto de cima, reparei em um montinho escuro no chão. Como bom curioso fui ver o que era. Que lindo! Borboletas na bosta. Que encontro romântico.

Sensacional a descida. Sem cascalho, terra batida. Mas como a bike tava estranha devido ao peso no bagageiro não passei de 50 km/h.Pausa na ponte só para registrar em foto.

Sai ligeirinho. Antes de começar o primeiro cotovelo tentei passar para a coroinha, mas tive que descer da bike, não estava baixando sozinha. Subi bem, apesar do peso extra. Esses cotovelos já foram piores.Cheguei em Sta Lúcia do Piai com 17,7 kms de média. Ótimo por estar mais pesado e não ter forçado, me poupando.
Comi um sanduiche de 3 fatias de pão velho com queijo e presunto, um refri preto.
Quase causei uma briga lá. Inventei de pedir se tinha como ir a Gramado por dentro.
Entre partidários do sim e do não. 'Porqui' pra cá e 'porqui' pra lá, os animos esquentaram. Estava legal de ver e ouvir.
Mas não podia ficar muito tempo. Me fui, com o sanduiche na goela.
Na saída de Sta Lúcia tem um descidão pra mais de 50 por hora. Uma subidinha curta e outro descidão e mais descida. Carai! Depois tem uma subida que eu não lembrava como era. Entrei na coroa do meio, cascalheiraaa, subidão forte. Faltou perna. Tive que parar, trocar para coroinha e arrancar. Não foi fácil. Fiz 3 tentativas, arranquei mas, não consegui manter o equilíbrio. Atravessei a estrada tentando controlar a bike. A dianteira escapava no cascalho. Tive que colocar o pé no chão.
Esperei uma kombi velha passar. Levei a bike para o trilho da direita que tinha menos cascalho. Esperei passar outro carro e na segunda tentativa arranquei.
Eu havia passado por essa estrada com o Marcelo Guazzelli, na direção contraria. Algumas referências necessárias eu lembrava. Passei a igreja de São Paulo e subi até a encruzilhada com o açude grande. Aí peguei a esquerda.
Um mundo novo e desconhecido se descortinava. (Que linda frase, rsrsrsrs)

Logo em seguida eu deveria pegar a direita em uma encruzilhada, que me levaria a uma serrinha, passando por uma ponte com lageado no fundo.
As referências do Google Earth não fecharam e as imagens mentais estavam imprecisas naquele ponto.
Peguei a primeira a direita, me sentia cansado, não estava a fim de errar. Desci uns 500 metros e vinha um monza na direção contraria. Parei, fiz sinal para o carro parar.
Me informei e o motorista disse que deveria voltar até a encruzilhada e pegar a próxima a direita. Fiz isso, mas era uma estradinha tão chinfrim que duvidei. Depois de 1 km voltei até a encruzilhada onde peguei esta e segui a esquerda, pela estrada mais usada.
Passei por duas casas e nenhuma alma viva para pedir informações. Segui, era um trecho bem bonito, bem alto, um dos pontos mais altos da região. Encontrei outra encruzilhada. Vi que a esquerda acabava em uma casa e a direita havia uma casa próxima. Passei um mataburro, não morri. Bom sinal. Havia umas menininhas brincando com uma bola atrás de uma cerca-viva. Chamei e apareceu um homem que estava junto, o qual eu não havia visto. O nome dele é Sérgio Catusso. Pedi informações e ele disse que a estrada certa era a que eu havia entrado antes. Aquela que achei chinfrim. Disse também que era só seguir a 'principal'. Eu ri e comentei que era impossível perceber qual era a principal. Todas pareciam o fim da estrada.
Voltei mais uns kilômetros e peguei a dita estrada, preocupado em não errar mais, pois estava custando muito tempo e o sol de outono desce rápido. Houve um curto e belo trecho com misto de mato e campo, era um lugar alto. De repente começou a descida. E que descida!!! Os dois freios travados e a bike continuava arrastando e descendo. O certo é não travar. Mas fiz só para testar a inclinação da estrada. Alguns cotovelos bem fechados nesta descida claustrofóbica, sombreada e escura. É um local de relevo bem dramático, com vales estreitos e profundos. Sozinho parece que estas sensações tomam proporções épicas. 'Hay' que relativizar tudo que se sente para retransmitir em relato.
Enfim cheguei a ponte de concreto. As cercas de proteção já se foram, provavelmente em alguma enchente que varreu o fundo do vale. Sobraram alguns ferros deitados e retorcidos.

Depois da ponte a estrada serpenteia por entre morros e algumas casas. É um belo local. Senti boas energias por aqui. Eu estava na face do morro que batia sol. A face sodoeste. Belas cores e paisagens.


Encontrei um indio velho que vinha com uma crianças. De longe pensei ser uma mulher pois os cabelos eram compridos, até os ombros. Adoro essas oportunidades de conversar com os locais. Mesmo sabendo que estava na estrada certa parei para pedir informações e confirmar alguns dados.Proseamos, eu disse que vinha de Caxias, por Sta Lucia. Aí ele falou. Aah mas tá bem 'muntado'. Ai me explicou por onde ir. Nos despedimos e segui minha jornada.

Parei logo adiante para fotografar uma placa como registro de passagem e a casa de madeira da propriedade. Muito bonita.


Segui mais um pouco, passei a encruzilhada que vinha do sudoeste e comecei a subir.
Vi no Google Earth que era uma longa subida. Deduzi que por ser longa, seria relativamente suave, coisa para coroa do meio.
O início da subida tinha um ângulo que fazia ficar pesado na coroa do meio. Passei a primeira curva a esquerda, vi logo adiante outra para direita, pensei; - Depois daquela curva deve amansar. Cheguei na curva a direita com as veias do pescoço estourando, quando olhei não acreditei no subidão e inclinação que me esperava.
A estrada está na borda sul do morro, bem escura. completamente molhada por não pegar sol e com bastante cascalho.
Parei, passei a corrente para a coroa pequena, bebi água, dei um tempinho pois tinha forçado até ali. Passou um Santana cheio de pelos duros. Havia uma moça no banco de trás muito linda. Com ares de princesa persa. Fiquei com a imagem do rosto e do olhar dela na mente por um bom tempo.
Subi na bike e fiz umas 3 tentativas até que consegui arrancar. Eitaa! Lá fui eu, ouvindo o ruidoso rio que desse pelo canyon a direita. Pelo barulho o terreno é acidentado e inclinado, o que faz a água acelerar e rugir nas quedas.
Fiz a primeira longa subida e virei a esquerda. Cruzes! Outra subida tão longa quanto a anterior, no mesmo grau de inclinação.
Travei as pernas naquele ritmo de primeira marcha e fui pacientemente escalando. Cheguei a outra curva, contornei e... Jisuis!!! Outra subida, ainda mais longa. E outra e outra. Pensei que não acabaria mais. Foi tão, mas tão puxado esse morro que há uns 30 metros do topo perdi a pedalada porque a dianteira levantou e completei empurrando. Cheguei em cima e me atirei no chão, sentado, tentando retomar o ritmo normal do coração e pulmões. Com certeza eu estava a mais de 160 batimentos.
Me senti beem desgastado e comecei a me preocupar com o que ainda restava de estrada, mais uma serra para descer e outra para subir. E o sol baixando.
Comi uns salgadinhos, bebi água e segui. Ainda houve duas longas subidas, onde passaram uns motoqueiros agricultores sem capacete por mim. o último gritou: - De bike é f*. Ele não imagina quanto!

Cheguei a outra encruzilhada, sem placas. E agora? Esperei pois ouvia barulho de um veículo. Em dois minutos chegou um caminhão caçamba da prefeitura de Caxias. Entrou como quem vai descer por onde eu havia subido, não pude chamá-lo para pedir informação. Mas freou e voltou de ré, agora para onde eu estava parado. Saí para não ser atropoleado. Ele seguiu de ré pela estradinha a direita. Não poderia ir longe assim. Segui-o. Quando parou me aproximei e fiz as perguntas básicas. Onde estou, para ounde devo ir, quantos kms, como é a estrada, que referências?
Bueno, era seguir adiante por aquele caminho. Andei uns 6 kms por subidas e descidas de nivel médio. Parei um gol pois havia uma quadrifurcação. Ele me instruiu por onde ir. Agradeci e saí. De repente me dei conta que não havia registrado nada do que ele falou. Deficit de atenção pelo cansaço. Aí percebi que já estava bem cansado. Andei mais 1 km e peguei a direita na encruzilhada. Wrong way. Cheguei em uma propriedade com um enorme pomar de maçãs, muitos 'pallets' sendo colocados em um caminhão. Me dirigi a um senhor para pedir informações, que me indicou outro . Este me deu algumas e pediu para um terceiro mais informações. Eu precisava voltar uns 800 metros, descer e pegar a direita. Haviam placas segundo eles.
A minha cara não devia ser das melhores, o senhor, provavelmente o proprietário das terras me ofereceu maçãs para comer. Agradeci, disse que não queria e pedi água. O menino dele, de uns 10 anos saltou faceiro para acompanhar aquela figura exótica, eu, que apareceu ali no meio do nada com uma bicicleta. Que estranha sedução e simpatia uma bicicleta desperta.
Carreguei as caramanholas e retomei a estrada. Mas eu estava ficando desmotivado. Estava bem cansado. Havia muito por pedalar e o sol outonal estava baixando perigosamente para um imprevidente que saiu sem farol. Andei uns 200 metros e parei. Lembrei de um santo remédio nessas horas de aflição para alegrar a alma cansada e retomar a confiança. Troquei as lentes escuras do óculos pelas amarelas.
Que maravilha. Cores vivas e alegres. Já num 'vú' tudo muda. Tudo se alegra. Cromoterapia.
O caminhão com maçãs passou por mim. Guardei as lentes escuras na pochete e me larguei atrás dele. Me animei, alcancei o caminhão mas não pude passar pois a estrada era estreita. Também não adiantaria. No fim da descida havia uma encruzilhada onde o caminhão foi reto em direção a Vila Oliva e eu entrei a direta rumo a ponte de ferro do Rio Sta Cruz.
Agora eu precisava chegar láááá embaixo. No fundão, onde tem a sobra na foto abaixo.

'Descidóóóón tchó´. Para quem conhece os Cotovelos do Belo dá pra dizer que é idêntico. Talvez um pouco mais inclinado, só subindo para saber. Mas é uma bela descida. Virgi!

Primeira visão da ponte de ferro.

Grandes contrastes de luz e sombra acrescentam dramaticidade as fotos.

Enfim cheguei a tal ponte de ferro que tanto me seduziu por quase dois anos. Estar ali já era uma grande vitória. É um belo buraco!!
Fiz foto com pose de vencedor. Assim que a máquina bateu no automático tive que sair correndo para evitar que uma moto atropelasse a Nikota no meio da ponte. Acho que dei um susto no cara que estava com um guri na garupa.
Conversamos rapidamente, estavam sem capacete. Ele disse que a subida era boa.

E era mesmo. A subida que mais me assustava mostrou-se bem agradável, porém pedregosa. Comecei na coroa do meio e passei para pequena mais adiante para não haver nenhuma surpresa. Subi uns 5 kms assim, até que ganhei confiança e percebi que não haveria subida que eu não pudesse fazer na coroa do meio. Passaram alguns carros e motos. Percebi que pelos olhares não estão acostumados a ver uma bicicleta por ali.

O fato é que a subida é impressionantemente longa. Após subir a serra do Sta Cruz cheguei a uma encruzilhada. Sem placas indicativas. Peguei a direita. Desci por uns 500 metros. Parei, havia uma casa. Mas era descida até lá. Se fosse teria de subir. Já estava de saco cheio de subir. Esperei uns 5 minutos até que passou um carro. Caminho errado novamente. Voltei subindo uns 800 metros até a encruzilhada e segui subindo e subindo e subindo e subindo. Que merda! Não acaba essa subida!
Encontrei um morador, conversamos um pouco. Ele estava vindo de um canil próximo. Mas não achou o cão que desejava para cuidar da casa. Uma belíssima casa por onde eu havia pssado uns 300 metros antes. Em uma encosta com um visual fantástico de um vale. Pedi informações e segundo ele faltavam 9 kms até Gramado, a estrada chegaria lá pelo Mato Queimado e sairia na Borges de Medeiros.
Segui viajem. Foram 9 kms realmente, só de subida, sem uma retinha sequer de descanso. Preciso voltar lá para ter certeza da kilometragem, mas acho que fica entre 15 e 20 kms. Eu já estava com dificuldades de avaliar com precisão. Só percebia que não acabava nunca.
Cheguei ao ponto de não agüentar mais subir. Estava insuportável. Eu até tinha pernas, mas não tinha mais paciência.
Enfim asfalto. Marca de cidade e civilização. Cheguei!
Desci a Borges, passei pelo centro, Rua Coberta, Igreja e parei no Super Cesa. Precisava comprar sabonete para o banho. Fiz isso rapidamente pois a Gradiva ficou do lado de fora. Já havia anoitecido. Me dirigi ao albergue, só de camisa de mangas curtas pois estava sujo e não iria vestir ajaqueta agora. Vento, frio. Chegando lá me registrei e fui arrumar meus trens e tomar banho. Que maravilha, água quente caindo sobre o corpo.
Atravessei a rua e fui na padaria em frente comer. Enquanto me dirigia até lá fiquei pensando no que comer. Meu desjo era comer 3 unidades de cada coisa que houvesse e beber uns 1000 litros de todo o sortimento de liquidos 'bebiveis' que houvesse.
Mas acabei pedindo um pedaço de torta de morangos e um refri de laranja.
Aconteceu de novo, igual a outra pedalada em Canela alguns anos atrás. Tomei o liquido gelado e minha garganta fechou. A partir daí comer e beber era muito dolorido. Passei a diminuir o tamanho do pedaço de torta que ingeria e o tamanho do gole de refri. Comer e beber deixou de ser algo prazeroso e passou a ser um exercício duro de paciência. Em pouco tempo já estava sentindo sensações de estar febril. Calafrios e o rosto e testa bem quentes. Quase fui pedir a senhora que estava no caixa que pusesse a mão na minha testa para confirmar. Pensei em usar alguma medicação. Mas evito isso ao máximo.
Fiquei ali na mesa. Pacientemente comi e bebi. Depois de um tempo pedi um cafezão quente e uma sfiha. Mais um quantum de paciência para comer e beber. Mas eu tinha noção da importancia da alimentação para a recuperação.
Sai da padaria e liguei para a Raquel e a Vanessa avisando que eu estava em Gramado e 40 minutos depois elas estavam passando para me pegar e ir jantar de novo. A Nina, amiga delas, que eu conhecia só virtualmente, estava ciceroneando 5 pessoas vindas da Índia. Fiquei próximo de duas senhoras de lá, a Assna e Raji durante a janta. Raji parecia um pouco atrapalhada com talheres. Conversamos um tanto. Depois ainda fomos dar uma volta pela rua coberta onde conversei outro tanto com a Assna. Muito legal. Gosto desses passeios cheios de gente nova e interessante.
No domingo teve pedal até a ponte do Passo do Inferno. Mas fica para outro relato.
Bosta de dia. Não sei porque. Mas é uma bosta.
Não tô legal. Hoje era pra fazer o Pedal do Fim do Mundo mas aqueles dois viadinhos do Marcos e o Zunior não ligaram nem pra dizer que não iriam.
Pedalar sozinho por caminho tão desconhecido, distante e supostamente difícil é loucura.
São 7 horas. Me sinto fraco. Angustiado. Me reviro. Viro. Torno a revirar. Tá um saco ficar na cama.
Mas e se eu não for o que vou fazer aqui. Não tenho nada programado.
O resto da tropa marcou pedal na frente do Bob´s, será as 8 ou as 9. Sei lá. Não tô a fim.
As gurias vão pra Canela. Me convidaram pra pedalar por lá no domingo. Mas pra isso eu preciso ir até lá.
Aaaaaaaaa to 'mol'. Tô brabo. Mau humor, nuvem negra.
Putz. Já são 8 horas. A luz do sol entra em profusão pela janela. O dia parece bom. A previsão acenava com possibilidade de chuva.
8:30
Tem alguma coisa errada comigo. Sempre saio cedo da cama. Nos domingos, no máximo as 7:30.
Ouço barulhos de cidade em movimento, já são 9 horas da manhã.
Bosta, vou levantar.
Vou lá fora ver está porcaria de dia. Deve estar horrível, não vai dar pra pedalar mesmo. Assim decido de uma vez e fico em casa. O Pedal do Fim do Mundo tem que ser com sol e dia lindo.
Abro a porta e me deparo com um céu de brigadeiro. Não há nuvens e a temperatura está ótima.
Putz! Mas já são nove horas, não arrumei nada. Muito tarde. Não vou.
Mas o dia tá bonito.
E se eu for arrumando aos poucos pra ver se a vontade vem.
Sinto medo. Sozinho. Celular não pega. Se cair, só os urubus me acham.
Pensamentos pessimistas, mas precisam se considerados.
Trago a Gradiva, aquela que anda, para participar da conversa. Ver se ela me diz alguma coisa.
Muda, completamente calada como sempre, ela me deixa sozinho em minha decisão.
Mas ao menos sei que posso contar com ela, seja qual for a escolha, ela nunca reclama.
Saio de novo lá fora. Ainda não há nuvens. Vou ou não vou. Saco! Sozinho! Com companhia é muito melhor. Faz quase dois anos que quero fazer esse trajeto e não consigo companhia. Já fiz vários convites. No único que alguém aceitou, o Testa, eu é que não pude ir.
Nossa, já são 10 horas. Nem fiz o mapa. Não vai dar.
Bom vou abrir o Google Earth e dar uma olhada, ver algumas referências.
Olho. Anoto algumas distâncias. Tem várias encruzilhadinhas. Marco algumas em um papel. Mas não tô com saco pra muito nhênhênhê.
Resolvo dar uma olhada no horóscopo do Terra, sempre é otimista, me faz bem quando leio.
"Os escorpianos já nascem com instrumentos para enfrentar as piores tempestades e os caminhos mais difíceis"
Era o que eu precisava ler para tomar uma decisão.
Eu vou. Tá decidido.
Agora com mais presteza, enrolo um pedaço de câmara no canote pra engrossar e fixar o bagageiro. Pego tudo que preciso, coloco na mochila, prendo a bolsa de guidão. Tenho tudo que preciso. Beleza.
Escoro a Gradiva na poltrona, encosto o pneu na porta como sempre faço. Sento no sofá pra por a sapatilha e BLAAAMMM. A Gradiva caiu, merda. Gradiva - caiu - chão - tombo - sozinho. Nãããão apaga esses pensamentos. Levantei a querida, nenhuma avaria. Escorei ela de novo. Sentei no sofá, comecei a colocar a outra sapatilha e BLAAAAMMM de novo. Aiaiaiai será que não é pra eu ir???
Que se exploda, agora eu vou.
Saí já eram 11:15. Muito tarde. Peguei a Rota do Sol, pit stop no posto São Luiz pra colocar mais ar nos pneus pois estava mais pesado com a bagagem.
Desci o Santa Fé voando e subi no coroão, só troquei pra coroa do meio no pé do morro do Eberle, pois entrei a direita na estrada de chão pra ir até o Bar do Véio e dali descer até a ponte amarela.

Quando fiz a foto de cima, reparei em um montinho escuro no chão. Como bom curioso fui ver o que era. Que lindo! Borboletas na bosta. Que encontro romântico.
Sensacional a descida. Sem cascalho, terra batida. Mas como a bike tava estranha devido ao peso no bagageiro não passei de 50 km/h.Pausa na ponte só para registrar em foto.

Sai ligeirinho. Antes de começar o primeiro cotovelo tentei passar para a coroinha, mas tive que descer da bike, não estava baixando sozinha. Subi bem, apesar do peso extra. Esses cotovelos já foram piores.Cheguei em Sta Lúcia do Piai com 17,7 kms de média. Ótimo por estar mais pesado e não ter forçado, me poupando.
Comi um sanduiche de 3 fatias de pão velho com queijo e presunto, um refri preto.
Quase causei uma briga lá. Inventei de pedir se tinha como ir a Gramado por dentro.
Entre partidários do sim e do não. 'Porqui' pra cá e 'porqui' pra lá, os animos esquentaram. Estava legal de ver e ouvir.
Mas não podia ficar muito tempo. Me fui, com o sanduiche na goela.
Na saída de Sta Lúcia tem um descidão pra mais de 50 por hora. Uma subidinha curta e outro descidão e mais descida. Carai! Depois tem uma subida que eu não lembrava como era. Entrei na coroa do meio, cascalheiraaa, subidão forte. Faltou perna. Tive que parar, trocar para coroinha e arrancar. Não foi fácil. Fiz 3 tentativas, arranquei mas, não consegui manter o equilíbrio. Atravessei a estrada tentando controlar a bike. A dianteira escapava no cascalho. Tive que colocar o pé no chão.
Esperei uma kombi velha passar. Levei a bike para o trilho da direita que tinha menos cascalho. Esperei passar outro carro e na segunda tentativa arranquei.
Eu havia passado por essa estrada com o Marcelo Guazzelli, na direção contraria. Algumas referências necessárias eu lembrava. Passei a igreja de São Paulo e subi até a encruzilhada com o açude grande. Aí peguei a esquerda.
Um mundo novo e desconhecido se descortinava. (Que linda frase, rsrsrsrs)

Logo em seguida eu deveria pegar a direita em uma encruzilhada, que me levaria a uma serrinha, passando por uma ponte com lageado no fundo.
As referências do Google Earth não fecharam e as imagens mentais estavam imprecisas naquele ponto.
Peguei a primeira a direita, me sentia cansado, não estava a fim de errar. Desci uns 500 metros e vinha um monza na direção contraria. Parei, fiz sinal para o carro parar.
Me informei e o motorista disse que deveria voltar até a encruzilhada e pegar a próxima a direita. Fiz isso, mas era uma estradinha tão chinfrim que duvidei. Depois de 1 km voltei até a encruzilhada onde peguei esta e segui a esquerda, pela estrada mais usada.
Passei por duas casas e nenhuma alma viva para pedir informações. Segui, era um trecho bem bonito, bem alto, um dos pontos mais altos da região. Encontrei outra encruzilhada. Vi que a esquerda acabava em uma casa e a direita havia uma casa próxima. Passei um mataburro, não morri. Bom sinal. Havia umas menininhas brincando com uma bola atrás de uma cerca-viva. Chamei e apareceu um homem que estava junto, o qual eu não havia visto. O nome dele é Sérgio Catusso. Pedi informações e ele disse que a estrada certa era a que eu havia entrado antes. Aquela que achei chinfrim. Disse também que era só seguir a 'principal'. Eu ri e comentei que era impossível perceber qual era a principal. Todas pareciam o fim da estrada.
Voltei mais uns kilômetros e peguei a dita estrada, preocupado em não errar mais, pois estava custando muito tempo e o sol de outono desce rápido. Houve um curto e belo trecho com misto de mato e campo, era um lugar alto. De repente começou a descida. E que descida!!! Os dois freios travados e a bike continuava arrastando e descendo. O certo é não travar. Mas fiz só para testar a inclinação da estrada. Alguns cotovelos bem fechados nesta descida claustrofóbica, sombreada e escura. É um local de relevo bem dramático, com vales estreitos e profundos. Sozinho parece que estas sensações tomam proporções épicas. 'Hay' que relativizar tudo que se sente para retransmitir em relato.
Enfim cheguei a ponte de concreto. As cercas de proteção já se foram, provavelmente em alguma enchente que varreu o fundo do vale. Sobraram alguns ferros deitados e retorcidos.

Depois da ponte a estrada serpenteia por entre morros e algumas casas. É um belo local. Senti boas energias por aqui. Eu estava na face do morro que batia sol. A face sodoeste. Belas cores e paisagens.


Encontrei um indio velho que vinha com uma crianças. De longe pensei ser uma mulher pois os cabelos eram compridos, até os ombros. Adoro essas oportunidades de conversar com os locais. Mesmo sabendo que estava na estrada certa parei para pedir informações e confirmar alguns dados.Proseamos, eu disse que vinha de Caxias, por Sta Lucia. Aí ele falou. Aah mas tá bem 'muntado'. Ai me explicou por onde ir. Nos despedimos e segui minha jornada.

Parei logo adiante para fotografar uma placa como registro de passagem e a casa de madeira da propriedade. Muito bonita.


Segui mais um pouco, passei a encruzilhada que vinha do sudoeste e comecei a subir.
Vi no Google Earth que era uma longa subida. Deduzi que por ser longa, seria relativamente suave, coisa para coroa do meio.
O início da subida tinha um ângulo que fazia ficar pesado na coroa do meio. Passei a primeira curva a esquerda, vi logo adiante outra para direita, pensei; - Depois daquela curva deve amansar. Cheguei na curva a direita com as veias do pescoço estourando, quando olhei não acreditei no subidão e inclinação que me esperava.
A estrada está na borda sul do morro, bem escura. completamente molhada por não pegar sol e com bastante cascalho.
Parei, passei a corrente para a coroa pequena, bebi água, dei um tempinho pois tinha forçado até ali. Passou um Santana cheio de pelos duros. Havia uma moça no banco de trás muito linda. Com ares de princesa persa. Fiquei com a imagem do rosto e do olhar dela na mente por um bom tempo.
Subi na bike e fiz umas 3 tentativas até que consegui arrancar. Eitaa! Lá fui eu, ouvindo o ruidoso rio que desse pelo canyon a direita. Pelo barulho o terreno é acidentado e inclinado, o que faz a água acelerar e rugir nas quedas.
Fiz a primeira longa subida e virei a esquerda. Cruzes! Outra subida tão longa quanto a anterior, no mesmo grau de inclinação.
Travei as pernas naquele ritmo de primeira marcha e fui pacientemente escalando. Cheguei a outra curva, contornei e... Jisuis!!! Outra subida, ainda mais longa. E outra e outra. Pensei que não acabaria mais. Foi tão, mas tão puxado esse morro que há uns 30 metros do topo perdi a pedalada porque a dianteira levantou e completei empurrando. Cheguei em cima e me atirei no chão, sentado, tentando retomar o ritmo normal do coração e pulmões. Com certeza eu estava a mais de 160 batimentos.
Me senti beem desgastado e comecei a me preocupar com o que ainda restava de estrada, mais uma serra para descer e outra para subir. E o sol baixando.
Comi uns salgadinhos, bebi água e segui. Ainda houve duas longas subidas, onde passaram uns motoqueiros agricultores sem capacete por mim. o último gritou: - De bike é f*. Ele não imagina quanto!

Cheguei a outra encruzilhada, sem placas. E agora? Esperei pois ouvia barulho de um veículo. Em dois minutos chegou um caminhão caçamba da prefeitura de Caxias. Entrou como quem vai descer por onde eu havia subido, não pude chamá-lo para pedir informação. Mas freou e voltou de ré, agora para onde eu estava parado. Saí para não ser atropoleado. Ele seguiu de ré pela estradinha a direita. Não poderia ir longe assim. Segui-o. Quando parou me aproximei e fiz as perguntas básicas. Onde estou, para ounde devo ir, quantos kms, como é a estrada, que referências?
Bueno, era seguir adiante por aquele caminho. Andei uns 6 kms por subidas e descidas de nivel médio. Parei um gol pois havia uma quadrifurcação. Ele me instruiu por onde ir. Agradeci e saí. De repente me dei conta que não havia registrado nada do que ele falou. Deficit de atenção pelo cansaço. Aí percebi que já estava bem cansado. Andei mais 1 km e peguei a direita na encruzilhada. Wrong way. Cheguei em uma propriedade com um enorme pomar de maçãs, muitos 'pallets' sendo colocados em um caminhão. Me dirigi a um senhor para pedir informações, que me indicou outro . Este me deu algumas e pediu para um terceiro mais informações. Eu precisava voltar uns 800 metros, descer e pegar a direita. Haviam placas segundo eles.
A minha cara não devia ser das melhores, o senhor, provavelmente o proprietário das terras me ofereceu maçãs para comer. Agradeci, disse que não queria e pedi água. O menino dele, de uns 10 anos saltou faceiro para acompanhar aquela figura exótica, eu, que apareceu ali no meio do nada com uma bicicleta. Que estranha sedução e simpatia uma bicicleta desperta.
Carreguei as caramanholas e retomei a estrada. Mas eu estava ficando desmotivado. Estava bem cansado. Havia muito por pedalar e o sol outonal estava baixando perigosamente para um imprevidente que saiu sem farol. Andei uns 200 metros e parei. Lembrei de um santo remédio nessas horas de aflição para alegrar a alma cansada e retomar a confiança. Troquei as lentes escuras do óculos pelas amarelas.
Que maravilha. Cores vivas e alegres. Já num 'vú' tudo muda. Tudo se alegra. Cromoterapia.
O caminhão com maçãs passou por mim. Guardei as lentes escuras na pochete e me larguei atrás dele. Me animei, alcancei o caminhão mas não pude passar pois a estrada era estreita. Também não adiantaria. No fim da descida havia uma encruzilhada onde o caminhão foi reto em direção a Vila Oliva e eu entrei a direta rumo a ponte de ferro do Rio Sta Cruz.
Agora eu precisava chegar láááá embaixo. No fundão, onde tem a sobra na foto abaixo.

'Descidóóóón tchó´. Para quem conhece os Cotovelos do Belo dá pra dizer que é idêntico. Talvez um pouco mais inclinado, só subindo para saber. Mas é uma bela descida. Virgi!

Primeira visão da ponte de ferro.

Grandes contrastes de luz e sombra acrescentam dramaticidade as fotos.

Enfim cheguei a tal ponte de ferro que tanto me seduziu por quase dois anos. Estar ali já era uma grande vitória. É um belo buraco!!
Fiz foto com pose de vencedor. Assim que a máquina bateu no automático tive que sair correndo para evitar que uma moto atropelasse a Nikota no meio da ponte. Acho que dei um susto no cara que estava com um guri na garupa.
Conversamos rapidamente, estavam sem capacete. Ele disse que a subida era boa.

E era mesmo. A subida que mais me assustava mostrou-se bem agradável, porém pedregosa. Comecei na coroa do meio e passei para pequena mais adiante para não haver nenhuma surpresa. Subi uns 5 kms assim, até que ganhei confiança e percebi que não haveria subida que eu não pudesse fazer na coroa do meio. Passaram alguns carros e motos. Percebi que pelos olhares não estão acostumados a ver uma bicicleta por ali.

O fato é que a subida é impressionantemente longa. Após subir a serra do Sta Cruz cheguei a uma encruzilhada. Sem placas indicativas. Peguei a direita. Desci por uns 500 metros. Parei, havia uma casa. Mas era descida até lá. Se fosse teria de subir. Já estava de saco cheio de subir. Esperei uns 5 minutos até que passou um carro. Caminho errado novamente. Voltei subindo uns 800 metros até a encruzilhada e segui subindo e subindo e subindo e subindo. Que merda! Não acaba essa subida!
Encontrei um morador, conversamos um pouco. Ele estava vindo de um canil próximo. Mas não achou o cão que desejava para cuidar da casa. Uma belíssima casa por onde eu havia pssado uns 300 metros antes. Em uma encosta com um visual fantástico de um vale. Pedi informações e segundo ele faltavam 9 kms até Gramado, a estrada chegaria lá pelo Mato Queimado e sairia na Borges de Medeiros.
Segui viajem. Foram 9 kms realmente, só de subida, sem uma retinha sequer de descanso. Preciso voltar lá para ter certeza da kilometragem, mas acho que fica entre 15 e 20 kms. Eu já estava com dificuldades de avaliar com precisão. Só percebia que não acabava nunca.
Cheguei ao ponto de não agüentar mais subir. Estava insuportável. Eu até tinha pernas, mas não tinha mais paciência.
Enfim asfalto. Marca de cidade e civilização. Cheguei!
Desci a Borges, passei pelo centro, Rua Coberta, Igreja e parei no Super Cesa. Precisava comprar sabonete para o banho. Fiz isso rapidamente pois a Gradiva ficou do lado de fora. Já havia anoitecido. Me dirigi ao albergue, só de camisa de mangas curtas pois estava sujo e não iria vestir ajaqueta agora. Vento, frio. Chegando lá me registrei e fui arrumar meus trens e tomar banho. Que maravilha, água quente caindo sobre o corpo.
Atravessei a rua e fui na padaria em frente comer. Enquanto me dirigia até lá fiquei pensando no que comer. Meu desjo era comer 3 unidades de cada coisa que houvesse e beber uns 1000 litros de todo o sortimento de liquidos 'bebiveis' que houvesse.
Mas acabei pedindo um pedaço de torta de morangos e um refri de laranja.
Aconteceu de novo, igual a outra pedalada em Canela alguns anos atrás. Tomei o liquido gelado e minha garganta fechou. A partir daí comer e beber era muito dolorido. Passei a diminuir o tamanho do pedaço de torta que ingeria e o tamanho do gole de refri. Comer e beber deixou de ser algo prazeroso e passou a ser um exercício duro de paciência. Em pouco tempo já estava sentindo sensações de estar febril. Calafrios e o rosto e testa bem quentes. Quase fui pedir a senhora que estava no caixa que pusesse a mão na minha testa para confirmar. Pensei em usar alguma medicação. Mas evito isso ao máximo.
Fiquei ali na mesa. Pacientemente comi e bebi. Depois de um tempo pedi um cafezão quente e uma sfiha. Mais um quantum de paciência para comer e beber. Mas eu tinha noção da importancia da alimentação para a recuperação.
Sai da padaria e liguei para a Raquel e a Vanessa avisando que eu estava em Gramado e 40 minutos depois elas estavam passando para me pegar e ir jantar de novo. A Nina, amiga delas, que eu conhecia só virtualmente, estava ciceroneando 5 pessoas vindas da Índia. Fiquei próximo de duas senhoras de lá, a Assna e Raji durante a janta. Raji parecia um pouco atrapalhada com talheres. Conversamos um tanto. Depois ainda fomos dar uma volta pela rua coberta onde conversei outro tanto com a Assna. Muito legal. Gosto desses passeios cheios de gente nova e interessante.
No domingo teve pedal até a ponte do Passo do Inferno. Mas fica para outro relato.
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